Maria Moreira

“… Chamo-me Maria Filomena Moreira, tenho 34 anos e há quase 5 anos atrás, faz precisamente 5 anos no dia 19 de Junho 2010, foi-me diagnosticado uma leucemia Mieloblástica Aguda, do subtipo M3.

Assim que comecei os tratamentos de quimioterapia o apetite desapareceu e o peso começou a diminuir. Só não diminuiu mais, porque tive a sorte de, no hospital às refeições, ter sempre um familiar presente que me “obrigava” a comer.

Quando vinha a casa entre tratamentos, a minha família fazia de tudo para satisfazer todos os meus desejos alimentares. Apesar de não serem muitos, passei a inventar desejos para fazer-lhes a vontade, principalmente à minha mãe que até hoje se encarrega de saber se me estou a alimentar bem ou não. Por isso pedia natas para tomar com o café, fatias de pizza à tarde, batatas fritas, todas as loucuras que me lembrava. Uma das coisas que mais senti falta de comer no hospital foi fruta fresca. Quando vim a casa pela primeira vez, perguntei se poderia comer fruta e disseram-me que sim, mas de preferência fruta de casca grossa. Por isso comi imenso melão e melancia. A sopa sempre foi algo que comi muito bem, por isso mesmo que não comesse muito mais, só com a sopa já ficava bem. Assim nunca baixei muito o meu peso. O mínimo que pesei foi 60 Kgs, o que para um doente leucémico creio que está até bastante bem.

Relativamente à pele, o que mais pedia era hidratação. A quimioterapia deixava-me a pele seca e escamada, por isso quanto mais a hidratasse melhor. Sempre que tomava banho colocava um hidratante bastante forte. Por outro lado, com as defesas em baixo, foi-me aconselhado a colocar um protector solar sempre que saísse. São medidas básicas que não me causaram qualquer transtorno, e que, no fundo, devem ser seguidas  não só pelos doentes, mas por todos.

O cateter, esse, deveria mantê-lo tapado. Depois do banho era preciso trocar o penso e fazer uma pequena limpeza com soro fisiológico. Ao início o cateter era algo muito estranho e incomodativo, tinha medo de me mexer e me magoar naqueles fios todos, por isso dormia sempre de costas. Como é óbvio, acordava com as costas doridas de estar sempre na mesma posição. Mas com o passar do tempo deixei de me lembrar que o tinha e passei a ignorá-lo, isto porque efectivamente não me causava dores nenhumas. Passei a dormir em qualquer posição e a ter noites melhores. Por outro lado o cateter evitava que estivesse a ser sempre picada, por isso passei a olhá-lo como um amiguinho e tratava-o com todo o carinho.

 

Relativamente aos locais públicos, sempre me aconselharam a evitá-los, mas como sabiam que seria impossível manter-me fechada em casa, aconselharam-me a ir a locais quando estes tivessem pouco movimento. A manhã, durante a semana, era o ideal para as minhas saídas. Disseram que podia tomar o pequeno-almoço ao Pão quente e a seguir ir ao Shopping fazer as minhas compras, o que para mim foi o delírio total.

Bem, no geral, as minhas idas a casa sempre foram fantásticas, mesmo com algumas limitações.”