Terapia de Reiki

Uma equipa do Hospital de São João tem tido bons resultados na sua prática clínica através de um projecto que envolve a terapia de Reiki em doentes com cancro de sangue e que se tem revelado um verdadeiro sucesso.

Trata-se de um projecto de voluntariado prestado pela Associação de Apoio a Doentes com Leucemia e Linfoma (ADL) que funciona nas instalações do Hospital de São João (HSJ) com a devida autorização do Conselho de Administração. Tudo começou pela realização de um projecto de investigação realizado entre 2007 e 2009, coordenado pela enfermeira e terapeuta de Reiki Zilda Alarcão em que integrou na sua amostra, 26 doentes do grupo de estudo e 19 de controlo. Foram realizadas 243 terapias de Reiki, aos 26 doentes do grupo de estudo nos doentes internados na Unidade de Isolamento no serviço de Hemato-Oncologia, ou seja, doentes com cancro de sangue, que na altura estavam internados a fazer quimioterapias intensivas e que após um consentimento informado, quiseram experimentar o Reiki como terapia complementar ao tratamento instituído. “Esta é uma técnica perfeitamente inócua, porque utiliza a energia universal, não tem qualquer efeito colateral, não é farmacológica e tem como objectivo equilibrar o doente nas vertentes física, mental e espiritual, através das mãos de um terapeuta que conduz essa energia para o corpo físico do paciente – a dita energia universal – de forma a restabelecer a capacidade inata do receptor e daí desbloquear os seus centros energéticos”, explica Zilda Alarcão. Antes de qualquer terapia estabelece-se uma conversa empática utilizando as ferramentas mais adequadas a cada doente, por forma a ajudar a vencer a doença vivendo com plenitude “um dia de cada vez”.

O Conselho de Administração do HSJ aprovou este projecto de voluntariado em 2012, explica a Dr.ª Fátima Ferreira, hematologista do HSJ e presidente da ADL. Verificou-se que os doentes que o integraram “passaram a ter menos efeitos laterais resultantes da quimioterapia e globalmente sentiam-se melhor, aceitando a doença e encarando-a de forma positiva. Mesmo ao nível de náuseas, de vómitos, de aceitação da imagem corporal – grande problema sobretudo para mulheres – os resultados foram positivos”, acrescenta a médica. Começou então a surgir interesse por parte da coordenação do projecto em dar continuidade ao mesmo. “Acabámos por ter autorização do Conselho de Administração do HSJ para fazer esta terapia que é complementar, não pretende substituir qualquer intervenção médica e começámos a desenvolvê-la em doentes em ambulatório desde há ano e meio”, revela Fátima Ferreira. Todos os terapeutas que fazem sessões de Reiki são profissionais de saúde mas participam neste projecto em regime de voluntariado.

Apesar de o Reiki estar envolto de algum cepticismo por parte de pessoas que nunca experimentaram nem têm muita noção do que se trata, ambas as profissionais indicam que a maioria dos doentes que experimenta a terapia gosta e até o recomenda a outras pessoas que estejam a passar pela mesma situação. ” Dizem-nos que se sentem mais calmos, que têm menos efeitos secundários e que conseguem passar a gerir a doença de forma diferente. O Reiki, segundo aquilo que me apercebo, acaba por permitir que os doentes tenham uma nova filosofia de vida com o que assimilam em cada sessão ficando mais tranquilos”, foca a médica hematologista.

Coakley e Barron definiram o Reiki, no ano de 2012, “como uma terapia que permite o encontro da essência cósmica Rei, a energia universal e transcendental que tudo circunda e existe no Universo, com Ki, a energia vital individual do humano, animal, vegetal e mineral.” E como se aplica? “Consiste em direccionar a energia do universo através das mãos de um canal (o terapeuta) para o corpo físico do paciente utilizando os principais chacras (centros energéticos) de forma a estimular a capacidade inata do receptor. Pode realizar-se com o terapeuta tocar o paciente ou pela imposição de mãos (alguns centímetros de distanciamento do corpo físico) “, salienta Zilda Alarcão. Há determinados centros energéticos que estão bloqueados numa pessoa que se encontra doente e é aí que o Reiki intervém. O corpo humano é receptor e dador de energia”, salienta a terapeuta.

Uma das mais conceituadas escolas superiores de Enfermagem dos EUA, no ano de 2007, veio indicar que “a Associação Americana de Enfermagem Holística aceitou o Reiki como forma de tratamento, tendo-o enquadrado no seu plano de estudos e elaborado um manual específico no decorrer do mesmo ano.”

Normalmente, um mesmo doente faz uma sessão por semana, durante aproximadamente uma hora até ao momento em que se encontre equilibrado, o que nestes doentes demora muitos meses sendo posteriormente convidados a ter alta por Reiki, voltando sempre que considerem que não estão bem. “Podem voltar a frequentar as sessões tendo prioridade em relação a novos doentes e esta ocorrência é transmitida pelo próprio via telemóvel ou em situações mais graves pelo respectivo médico. Em caso de equilíbrio sustentado, os doentes colaboram dando lugar a outros”, refere Zilda Alarcão.

Melhoria da qualidade de vida

Desde Setembro de 2012 até Dezembro de 2013, o voluntariado de Reiki do HSJ “realizou 194 terapias a um total de 13 doentes, incluindo as do internamento. Faleceram três doentes, emigrou um, desistiu um e tiveram alta por Reiki três doentes. Até ao momento, este projecto realiza-se apenas duas vezes por semana, tendo sido cedido um gabinete às 2ªs feiras e um outro às 4ªs feiras entre as 14h30 e as 19h00″, esclarece Zilda Alarcão.

As experiências vivenciadas e o feedback dos doentes demonstraram que efectivamente estas sessões são vantajosas para estes doentes. “Na verdade, recebemos as suas opiniões e eles próprios passam a palavra a outros transmitindo-lhes que realmente se sentem muito melhor após a frequência destas sessões do que anteriormente. O doente tem de querer experimentar e dar o seu consentimento informado, ou seja, assinar uma folha indicando que quer realizar aquela sessão de Reiki. Da mesma forma, se experimentar e não quiser continuar, pode desistir. Ninguém é obrigado a manter esta terapia se não for essa a sua vontade”, adianta Fátima Ferreira.

Os doentes começam a entender que “têm de viver um dia de cada vez com intensidade” e é nesse aspecto que a terapia é fundamental. “Deve haver empatia entre terapeuta e o doente o para ajudá-lo a ultrapassar sintomas físicos e psicológicos. Por vezes, um paciente até é capaz de referir um outro problema além da sua situação clínica, como por exemplo, o facto de ser o sustento da família e de estar muito preocupado com a subsistência da mesma. Muitas vezes, a preocupação vai além da própria doença”, salienta Zilda Alarcão. É também importante que os doentes percebam que devem valorizar e vivenciar “todas as boas notícias que recebem durante os tratamentos”. Para a terapeuta de Reiki, “é completamente diferente e muito gratificante ver doentes que começam a conseguir sorrir e até brincar com a sua situação.”

O sucesso tem sido tal que Fátima Ferreira já equaciona a inclusão de outra terapia complementar nos doentes acompanhados no HSJ – a acupunctura. De igual modo, sabe-se que o espírito positivo do doente em relação à sua doença e à motivação para participar nos tratamentos é um factor muito importante no sucesso dos mesmos e na evolução da patologia. “Isto é algo que os médicos observam todos os dias. Um doente muito deprimido que não tem qualquer motivação ou vontade para se tratar tem maior tendência a ser mal sucedido”, salienta a presidente da ADL, e dá um exemplo concreto: “tivemos um caso de um doente muito ligado à ciência e muito céptico em relação ao Reiki mas que experimentou e mudou completamente a sua opinião. Apesar de ter falecido, acabou por ter uma qualidade de vida bastante melhor mesmo em fases complicadas da doença devido a esta terapia.”

Há doentes que mesmo depois de terminarem a quimioterapia no hospital pretendem continuar a frequentar sessões de Reiki. “Temos um protocolo com a Associação Portuguesa de Reiki com o intuito de arranjarem terapeutas fora do hospital para que estes doentes possam continuar a realizá-las. Ainda não está a funcionar como pretendíamos mas num caso ou noutro já conseguimos dar resposta. Costumo dizer que o Reiki não é só adequado a doentes mas também a pessoas saudáveis. Desde que queiram experimentar e se sintam bem, podem e devem fazê-lo”, explica.

Texto: Cláudia Pinto